30.6.04

O jeito do teu coração

Percorri cada centímetro do teu corpo
na tentativa de guardar-te
construído dentro de mim.

Percorri teus olhos, túrgido mar
com algumas ondas furiosas.
Teus lábios, carne macia e úmida
Seiva, brotando hortelã e menta

Teus braços, calorosa proteção
Agasalho dos meus desejos aplacados.
Tuas mãos, dedos longos, carícia plena
a dedilhar sobre as minhas, pequenas

Percorri cada timbre da tua voz,
imaginando guardá-la comigo,
se houvesse um dia,
ruptura entre nós.

De tudo lembro ainda. Lembro bem
Mas o tempo é turbilhão
Eu me perdi de ti,
na espiral que o tempo tem

Tento...tento...e é em vão
Não lembro qual jeito tinha
o teu coração.


29.6.04

metáfora

o cântaro e a fonte
encontro singular
ele oferece o seu vazio
e ela a sua plenitude
depois o cântaro se vai
mas volta novamente
na troca intermitente
formando estranho par
um dá eternamente
e o outro - indecente
se embebe sem parar
existem pares assim
também no universo real
que subsistem inclementes
até o pote se quebrar


Um história qualquer

Minha alma foi teu consolo
onde derramaste tuas lágrimas
procuraste tua segurança
clareaste teus escuros
Meu corpo foi teu país
onde hasteaste tua bandeira
traçaste tuas fronteiras
e encontraste tua luz
Entreguei-te minha esperança mapeada
em cada linha do meu corpo
em cada nuance da minha alma
Não traduziste minhas marcas
não refletiste nos meus verdes
não emergiste nos meus sonhos
A luz se apagou
meu corpo se fechou
minha alma se rendeu

Dei-te adeus,
só meu sonho não percebeu


28.6.04

Vazio de nós dois

Do que antes era
cabelo solto, livre ao vento
amor pandorga, voando alto
murmúrios e carícias
de consentimento,
resta agora
no vazio de nós dois
a destemperança...
O coração no brete
e o lenço salgado,
que fica guardado
numa caixinha sem tampa.


Desamor

Já não há amor
Só desamor, dor
Não há vida em nossas vidas
Só feridas
doloridas
Não há gestos de carinho
Só descaminhos
sozinhos
Não há paz em nossos momentos
Só desalento
lamentos
Não há mais em nós semelhança
Só desconfiança
desesperança
Não há sonhos a viver
Só sofrer
Sofrer só
Só.


25.6.04

Apenas amor

Alcance-me com teu abraço
Aperte-me com tua fúria
Faça-me escrava do teu querer
Torne-me incoerente
Inconstante
Insana
Vire-me pelo avesso
Corte as minhas amarras
Empreste-me asas
Para jamais deixar de ser
Apenas amor


ansiedade

coração partido
de saudade ingrata
não, não houve ruptura
eu não a conhecia
e me deleitava na expectativa
de encontrá-la ao menos em delírios
os olhos ressequidos de arregalar ao vulto seu
que é o colírio e linimento
minha angústia e meu tormento
me vejo dissecado
e alguns pedaços já desgrudam de mim
aspiro sua água e o seu leite, o sangue e seu azeite
me hidrate, esbanje e submerja
me livra dessa fome e dessa sede
até que me embeba do seu mel

(meu post de 01/10/02 no blog Aos 4 Ventos)


Queixa

Não quero que me invadas solidão
Não sou teu cativo
Não és dona do meu coração
Não sou teu abrigo

Tua presença me corrói
Não sou teu, não és minha
essa saudade que ainda dói
ela por certo sai sozinha

Vai embora, me deixa
Quero outro amor respirar
Escuta minha triste queixa

Não sou só. Sou amar
E na tua partida solidão
Fecha com força o portão



24.6.04

Amor doentio

Perdendo-te
esqueci de mim
Não sei mais quem sou
Preciso reencontrar-te
assim me reconheço
Sou teu avesso

Amor doentio: essas eram as palvras certas. Tinha se entregue de corpo e alma, se embrenhado tanto nesta relação, e de maneira tão profunda, que já não sabia mais como desvencilhar-se. Esquecia-se de ter vida própria, e já não tinha mais amigos a não ser os dele. Enfeitar-se, que antes era um prazeroso ritual transformara-se em quase desleixo. Preferia, ao invés de usar algum perfume sentir apenas o odor do corpo suado do amante, satisfazer seus desejos e fetiches, e inebriar-se com seus líquidos. Saliva de menta e outros fluídos corpóreos, que conhecia tão bem como se fossem dela. Perdeu-se de amores, e de tanto amar, perdeu sua identidade esquecendo-se de si. Mesmo entregando-se assim, quase escrava, ele partiu e a abandonou. Por ora, ela senta-se na soleira da porta e aguarda a cada novo amanhecer, a volta do seu amor. Precisa reencontrá-lo mais uma única vez, para reconhecer-se e deixar de ser simplesmente o avesso dele.


fusão

sem querer foi sendo
adentramos sem planos
e quando percebemos
até o fugir tentamos
mas não conseguimos
e nos embrenhamos
cada vez mais fundo
em mútuos oceanos
e ao submergirmos
nunca mais voltamos
agora não sou
e também não és
nós apenas somos


23.6.04

Silêncio do distrato

Ele, ao lado esquerdo da mesa. Ela, à sua frente. Entre eles, um contrato. A vida dele estava naquele contrato a ser assinado. A vida dela estava em outro contrato já assinado. A vida deles dependia de mais uma assinatura. Dois anos no interior do Pará era o passaporte que ele precisava. Dois anos no interior do Pará seria o fim da carreira dela. Ela o olhou nos olhos. A decisão já fora tomada. Levantou-se e deu-lhe as costas. Com mãos firmes ele assinou sua nova vida. Em silêncio ela foi dormir no quarto do filho. Em silêncio ele começou a fazer as malas. No dia seguinte não haveria a vida deles. Haveria ele. Haveria ela. E haveria o filho dela. Do amor, apenas o silencioso distrato.


22.6.04

Palavra sem semente

Na definitiva mente
a definitiva palavra
não tem sabor
não tem cor
semente
crua
pobre
demente
Definitivamente
na definitiva mente
a palavra sem semente
é Amor


O canto do cisne

Ela atravessou o canto e empalideceu. Soa voz era um arremedo daquela que encantara platéias do mundo inteiro. Deixou-se cair inerte. Na sua música não havia mais nenhuma luz. Só restava aquela que ficava em frente ao palco e que um dia iluminara seus suaves movimentos enquanto a orquestra era apenas uma brisa naquele seu vôo solo. Sua vida cessara.
E a culpa era dele. Só dele. Ele não estivera ali quando ela cantou a última ária. Nem assobiou como fazia sempre quando ela terminava. Sua figura aquilina não estava sobre o balcão do teatro. Seu corpo másculo e quase juvenil, que desvendara tantos segredos dela, agora não ocupava a poltrona número um do primeiro camarote, bem próximo ao palco.
E a culpa era dela. Só dela. Como pudera se apaixonar por um homem trinta anos mais novo? Como se permitira entrar naquela aventura? Não era amor e ela sabia disso. Já amara outras vezes. Sabia que o amor é doação, cumplicidade e renúncia. Mas sabia também que amor é respeito. E não havia nada disso na relação deles.
Aos cinqüenta e poucos anos era uma mulher serena, bonita e reconhecida no mundo inteiro quando o conhecera. Nele, ao contrário, exceto o porte físico de um Apolo, nada mais era atraente. Não tinha sequer um rosto bonito. Não tinha cultura musical, apesar de dedilhar um piano com o esmero de um artesão que burila uma jóia rara. O pouco que sabia sobre Bach, Beethoven ou Villa Lobos ela o ensinara entre um gole e outro de vinho, na cama, após as sessões de sexo torrenciais, quando, de forma invariavel ela o gratificava para extrair dela suspiros e gozos.
Ali, sim, ele era incomparável. Como Aída, a ópera. Era o amante solícito e compulsivo. Ah, como sabia fazer com a boca coisas que nenhum que a amou conseguia fazer com as mãos! E quando revolvia seu corpo em busca de recantos que outros homens não conheceram, era pródigo em lhe arrancar espasmos. Se sentia mulher. Se fazia amante.
Seus seios rijos só ele sabia sugar com mestria. E alternava mordidas pequenas em seus mamilos. Ele era paciente quando ela chegava ao clímax muito rapidamente. Sabia que ela se apequenava em seus braços. Sabia que seu gozo era devido à sua juventude. Ele sabia. Sabia de tudo de seu corpo. Sabia onde ela escondia o objeto de seu prazer. E deixava sua língua penetrá-la em busca de suas entranhas e suas essências. E ela enroscava-se no corpo dele, arrancava a última gota de sua luxúria e só então o deixava ir.
Agora estava ali. Quedada sobre o palco vazio do teatro quase às escuras. E antes que a luz se apagasse, viu refletido no espelho do camarim o corpo nu da nova bailarina de 20 anos. O dele sobre o dela.


21.6.04

Auto-retrato

O cinzel sulcava fundo o metal. Esta não era apenas mais uma serigrafia. Era um auto-retrato. As mãos varicosas e os dedos nodosos já não tinham a agilidade de antes, porém ela tinha pressa. Ela sabia muito bem que tudo na vida tinha seu tempo certo para acontecer. Tempo de esculpir animais ferozes, esculpir o rosto do amado, e o tempo de mostrar as faces dos filhos. O tempo certo para retratar-se era este. Aos poucos iam aparecendo os fios de cabelo urdidos em trança, o queixo miúdo, e o esboço do amplo sorriso que lhe era inerente. Enquanto executava a obra, deliciava-se recitando baixinho uma de suas poesias. Compor poemas sempre fora seu segundo hobby, embora por muitas vezes, ela apenas as deixava cochilando dentro da gaveta do criado-mudo para que ninguém as lesse. As mãos tão competentes começaram de repente a tremer mais que o habitual. Antes de perder todas suas forças, ela quis dar um último retoque, rabiscando abaixo do rosto esculpido, Saudad... Não conseguiu concluir a palavra, pois sua alma começava a pairar entre o céu e a terra, envôlta por uma aura de luz.


alça de mira

Artesão primitivo da palavra
Tateia e ousa rumos impensados
Peito aberto arfante exibido
Tensão do arco
Há outras miras na aljava
São apenas um: arqueiro e seta
Retesa ao máximo dispara
Singram sangrando o ar rompido
E assesta a lança o coração partido
Verte a lava e o sangue avermelha a tez
Na pele desnuda extrema palidez
É a morte
O grito e o silêncio
Sina da vida, sorte
Já não existe dor
Ao fundo ouvem-se lamentos
Primeiro plano latente
Algazarra infantil indiferente
E no embaçado olhar defunto
Jaz inútil a última das lágrimas
Fim decadente que não cabe
Revolve as cinzas mal acaba tudo
E a esculpida palavra expressa
Recomeça ao cinzel miúdo

(ps. transcrito do meu blog
H@ Vida Depois dos 40
publicado em 02/12/02)


20.6.04

Poeta de um tempo perdido

Pasta debaixo do braço, ele se arrastava ladeira acima. Outra vez seus originais eram recusados. Poesias que ele parira com amor. Eram suas companheiras de muitas noites solitárias.
As recusas eram sempre gentis, mas os olhos que recusavam mostravam completa indiferença. E um certo desinteresse pela história que ele ajudara a construir.
Ele se sabia contundente. Sua vida sempre fora de contundências explícitas. Doía-lhe ainda pensar nos companheiros mutilados. Nas companheiras sodomizadas. Nos becos onde dormira tantas vezes. Nos gritos que eram calados pelo medo. Nos olhos que sonhavam com uma liberdade utópica.
Sua poesia era ele. Havia um certo lirismo, sua alma sempre festejara a vida. Mas havia sangue. Havia lágrimas. Havia amor. Havia morte. Jamais negaria a si mesmo e a sua história.
Sentia-se poeta. Mesmo que apenas ele se soubesse poeta. A poesia seria outra vez guardada até que outra vez ele criasse coragem para libertá-la.
O poeta não morreria. Apenas descansaria para criar vida nova.


19.6.04

O poeta e a poesia

Pelo poeta, a palavra
não surgirá para o poema
com a naturalidade do havido

Com símbolos, chaves e metáforas
o dia não será apenas dia,
e a noite não será apenas noite

O singular não reverterá ao comum,
e em suas veias correrá sempre
poesia ou prosa.
E na secção, rubra rosa será sangue


parceiros & parceria

"Quebro o rito e o ritmo, mas faço uma justa homenagem a Luis Tarciso, a quem sequer posso chamar de parceiro, posto que é meu mestre..." Regis

Peço desculpas a todos os leitores mas não pude evitar de manter a quebra do rito e ritmo iniciada pelo Regis e vou me pronunciar sobre isso ainda uma vez - e prometo que depois vou apenas prosear e poetar por aqui.
Amigos Regis, Loba e Jeanete. Aqui somos todos proseadores e poetas. Por isso não me deixem assim encabulado. Relutei muito em aceitar ser chamado poeta até que me identifiquei completamente com a perfeita definição de Pessoa para quem o poeta é um fingidor. Desde então me fiz poeta e armado de uma tosca poesia vou brandindo palavras às vezes dissonantes, escrevendo sobre a minha realidade ou dissertando sobre minhas fantasias. Mas sou apenas um primitivo, um leigo e neófito nesse mundo virtual e tão rico de pessoas maravilhosas como vocês. Então pra mim, o maior ganho é esse contato e interação que a internet nos permite. Definitivamente não sou mestre - me alegro muito se puder ser admitido como um de seus pares. Cada um de vocês tem um encanto característico e único - os escritores e os leitores que nos brindam com sua audiência. Não quero ser e não sou ingrato, mas não me sinto confortável com essa distinção imerecida - nunca fui mestre e nem serei - e, reafirmo, a grande distinção para mim é a de ser aceito e tratado como um dos seus pares.
Um fraternal abraço
Tarciso


Homem-pássaro

Quebro o rito e o ritmo, mas faço uma justa homenagem a Luis Tarciso, a quem sequer posso chamar de parceiro, posto que é meu mestre. Que seu sonho de voar antes do poente o leve sempre mais perto a presença do Criador. Que Ele o ilumine, dando-lhe asas fortes para continuar pairando sobre nós com sua poesia inesgotável. Um grande abraço, amigo

Homem-pássaro
(sonho de Ícaro)

O poeta quer voar
O poeta quer ser Ícaro

O poeta voa
O poeta sobrevoa
O poeta enleva
O poeta se eleva

O poeta é pássaro
O poeta trespassa
O poeta tem asas
O poeta faz mágicas

O poeta-Ícaro quer voar
O poeta-pássaro plana
O poeta, se engana
É ele que nos faz sonhar


17.6.04

Amor solitário

Sinto-te em mim. O desejo modela teu corpo na minha saudade atemporal. Cubro-me com os beijos que tua boca me negou. Meus braços se movem num abraço que me circunda. Sinto-me aos poucos. Meus sentidos brilham intensamente nas entrelinhas da realidade. Trago-te para mim.Tenho-te novamente. Entrego-me à tua lembrança e sou carinhos que percorrem fios e umidades. Minhas mãos, amante lésbica, deslizam pela pele sedenta. Deixo-me moldar por dedos ávidos que passeiam doidamente por meu corpo. Sinto a suavidade quente da tua língua descobrindo as minhas cavidades. Redescubro o teu prazer. Desmancho-me em líquidos e a vida volta a me preencher. Estou viva. Já posso chorar.


plenitude

a pele é de veludo
tépida e sedosa
gostosa de tocar
expele aquela luz suave
expande as sensações
entontece a visão
num halo envolvente
e já não se vê nada além
dois corpos castos e desnudos
em posição de amar no chão
entregam-se aos caprichos da libido
nada é proibido
tudo é sedução
o gosto
o cheiro
a troca dos gemidos incontidos
e o gozo longamente adiado
é finalmente consentido
explode em lavas
e tremores
olores conhecidos
invadem o recinto
abafam os sentidos
na ânsia do prazer
ganhando ao perder
um ser no outro ser
minutos infinitos
de paixão


Sedução

Farfalham ao vento as cortinas,
Quando em murmúrio te chamo
Rebrilham no céu as estrelas
Quando clamo por tua presença
Reforço-me em minha crença
Quando te sinto perto
Com paixão tamanha, te amo tanto
Que é certo:
Preciso de ti, como se fosses ar,
Como se fosses luz,
Como se fosses verso e prosa
Mas meus olhos...
Ah!... tornam-se vagos olhos
E perdem o lume
Ao ver que és alguém
Que seduz uma rosa,
Só para roubar o seu perfume


Corpo farto, olhos gratos

Sob fenda sensual da tua saia
Vejo oculto o objeto de meu desejo
Um sorriso cúmplice sugere emoções fortes
E mexe com meus nervos
Todos
Mal posso esperar ficarmos sós
Quero desatar todos os nós
E triunfante
Vingar-me de tua sedução
E meu corpo, exaurido,
Sobre teu corpo farto
Repousará agradecido


16.6.04

gratidão das pétalas

catava uma a uma as pétalas caídas
a exalar seu último estertor de vida
sorvia em deleite cada aroma
e cuidadosamente as depositava num alforje
que diuturnamente aos ombros carregava
perambulava perdido no tempo das lembranças
as crianças interrompiam seus folguedos
e o rodeavam em grande alarido
às vezes derrubavam-no em brincadeiras
e ele sorria
há muitas décadas passadas
fora uma delas - ainda era
e eternamente o seria
não fosse o impacto
o motorista embriagado
a decretar-lhe o fim da vida
agora jaz em silêncio e calmaria
seus despojos repousam num jardim
e a tumba permanece sempre ornada
pela multidão das suas pétalas caídas


Tempo de viver

Aconteceu de repente. Uma pétala caiu sobre sua cabeça. Vermelha. Viva. Risonha. Voltou no tempo e viu-se sentada à mesa. Uma alegre mancha rubra se espalhando pela toalha branca. À sua frente, olhos castanhos e brilhantes lhe sorriam. Era dia de despedida. Mas era despedida feliz. Ele conseguira a bolsa e rumaria pra realizar seu sonho. Comemoravam a alegria dele. A saudade dela ficaria pra depois. Foi a última vez que o viu sorrindo. Foi a última lembrança dos olhos felizes. No reencontro, os olhos estavam fechados. Uma rosa vermelha de pétalas aveludadas fora seu último presente ao amor que partia. Da rosa, restava uma pétala dentro do livro de Drummond. Dele, restavam as lembranças de um amor que se eternizara. Ainda havia dor. Mas as flores continuavam a sorrir em seu jardim. Outra rosa de pétalas vermelhas nascera. E uma nova pétala seria juntada à outra. A vida se anunciava. Era tempo de abraçá-la.


15.6.04

Naquele dia, alguma coisa estranha agitou-se dentro de mim.
Era como se uma rosa não abrisse lentamente, expondo uma a uma,suas pétalas aveludadas. Ao contrário, era como se ela as introjetasse para dentro de si, e para dentro do meu corpo. Rubras, maravilhosamente rubras.
Eu ria, e meu riso transformava-se de imediato, nos acordes suaves de uma flauta doce.
A neve passeava pelo campo, como o mais alvo, puro e virginal algodão.
E o sol que surgiu naquele dia, não era simplesmente o sol. O astro rei a iluminar e aquecer a terra. Mas, a mando do Criador, ele era o calor do que me aquecia o avesso. A chama farta amor, que aquece o coração dentro do peito.
Agora, sempre que meu corpo repousa amoroso, sobre o teu corpo acalmado, eu lembro.
Lembro bem: foi num vinte e quatro de junho, no meu décimo quarto aniversário,que teus olhos encontraram os meus, pela primeira vez.

Texto de Jeanete Ruaro


14.6.04

nebrasca

amanhã
silêncio branco
opondo-se à algazarra que foi ontem
hoje o mundo está mudo
suspensos brindes e tilintares
nenhum afago ao alcance
e o crepitar da chama
é apenas miragem
vertigem
ilusão
ou serão apenas bobagens
devaneios sutis na escuridão
reféns da roda do tempo
inclemente indiferente
pare ou dispare
um coração


13.6.04

Presente de um futuro em branco

Minhas palavras emudeceram
calo-me diante da minha própria ignorância
olho o nada em busca de respostas
apenas o silêncio cai sobre mim
Sou sentimentos que me olham atordoados
sou a pergunta que não quer calar
estou presa ao meu grito que cresce mudo
Contemplo a mim mesma: ainda sou eu
olhos sujos de lágrimas secas
coração calado das esperanças que se foram
mas ainda sou eu
Não me perco e essa é minha maior dor
não sei me esquecer
não sei me negar
Estou no presente de um futuro em branco
Estarei no silêncio ilhado do amanhã
mas estarei vida
ainda que muro de inscrições apagadas
E de você
o que sobrará?


Enamorados...

Um anúncio me chamou a atenção. Alguém queria vender um sítio. Marquei a visita: era Dia dos Namorados.
Um senhor forte me levou por um caminho estreito ladeado por roseiras. Muitas.
Os donos eram um casal de idosos. Os dois, de mãos dadas, sorriam o tempo todo. E foi assim que nos receberam: com sorrisos e rosas.
Saímos caminhando pelo pomar. Ele, mais falante. Ela, linda e tímida. Aos poucos ele foi falando. Dela. Era sua maior alegria. Falar dela era falar de um grande e imorredouro amor. E a história de amor foi se revelando, aos borbotões. A cada palavra, um olhar, um suspiro, um afago. Não, não era de saudade de um tempo perdido na memória. Era tempo real. Era amor.
Eles foram apaixonados quando tinham ele, 16, e ela, 17 anos. Ele contou que todas as manhãs passava sob a janela dela, cumprimentava-a com um bom-dia, sorriam e suas almas de beijavam com ternura. Nunca haviam passado além disso.
Ele era pobre e ela muito, muito rica. Soube, depois, que ela havia casado. Ele ficou sozinho. Durante 50 anos.
Ela ficou viúva. Depois... o reencontro!
Ele a pediu em casamento. Ela chorou. Casaram-se e foram viver no sítio. Estavam ali. Felizes, enamorados...
Da última vez, os vi descendo de um carro num restaurante bucólico. Ele abriu-lhe a porta, deu-lhe o braço. A enlaçou pela cintura e bailaram uma valsa. E todos viram o nascer de um amor que dura há mais de 60 anos. Por que esse amor nasce a cada instante. E é eterno...
Este é um caso real. Não é fantasia.


12.6.04

fantasia

pétalas da infância
promessa feminina
mulher desabrochada
em rosa de aroma delicado
nas lembranças de menino
a menina das lembranças
primeira paixão nunca esquecida
que ela nunca soube
e era tão bonita
vestida de anjo
asas esvoaçantes
planando no palco
dos meus sonhos
não é difícil voltar
no plano da memória
reinventar a história
que não houve
mas podia
e deveria ser tão linda
como ainda é em fantasia!


11.6.04

Amor reinventado

Às vezes preciso reinventar o amor para aceitar a necessidade de amar. Então busco flores e com elas tento me encontrar. Lembro a infância. Pétalas do mal-me-quer fazendo minhas escolhas. Era tão fácil sonhar. Cobria o chão do quarto com os sonhos de menina. Espalhava sobre eles fantasias de estrelas. E das estrelas nascia um menino. Embolado e embalado o meu menino dormia em meus braços. Era o sonho da menina que intuía a mulher. Mulher nasce para ser mãe. Será? Mulher nasce para ser mulher. O resto é opção. Menos amar. Amor invade. E é sempre tão grande que é preciso ser escutado no silêncio, sentido na ausência, vivido na memória, multiplicado no outro. Reinvento o amor para saber vivê-lo em toda sua intensidade.


10.6.04

requiem

à cova rasa
pouca terra e peso
arfava ofegante
nauseado e confuso
errante sob a lama
tamanho desconforto
razão do infortúnio
revelou-se só depois
jazia vivo em ânsias de viver
sustentado por um sopro
bruxoleante e pálido
um morto vivo para o amor


8.6.04

Epitáfio

Não vivo em busca de emoções fortes
Não temo, sequer, pela minha sorte
Não volvo a nenhum dos meus degraus anteriores
Não desço sobre o arco-iris em busca de cores
Ergo-me! Quero o presente
quero-te presente
quero os presentes
Todos os que deixastes de entregar
Tua alma
sentimentos
belos momentos
Quero subir na lápide fria
do meu passado recente e escrever
com a brasa do meu coração
um epitáfio simbólico
"Aqui jaz"
Sem nomes, sem versos
sem datas extremas e sem lembranças.
Um pagão desconhecido


7.6.04

Sobrevivência

Na mente: o presente
números e inúmeros apelos
tempo de buscar segurança
vida que se vai sem pensar
No corpo: o passado
saudade de beijos lentos e solfejos
tempo de amor derramado
morte que levou o amar
Na alma: o futuro
enfrentar o tempo sem medo de ousar
tomar do tempo o direito de amar
esperar sonhar realizar


6.6.04

arraial submerso

há muitos quilômetros de tudo
numa profundidade insustentável
onde fui esquecido
nem eu sei o endereço
só tenho de mim a superfície
e o mergulho pode ser sufocante
tento ser anfíbio ao inverso
e despejo em versos
tudo o que me afoga
enquanto aspiro a mão que afaga
e fujo ao frio sinistro das adagas
que penetram a alma sem cortar
mas nada vai além de fantasia
porque o concreto deste dia
me chama ao compromisso
balbucio
penso
emudeço
e nem há mais o que falar!!!
...


5.6.04

Há vida

Vida! Vida! Que haja!
Que venha! Plena!
Que seja fecundada
Em ovários estéreis
Que rasgue a terra
seu ventre
E venha
Enchendo campos
florindo
sorrindo
e que a chuva
em cristais
caia no interior da gente
e gere Vida.


E ela explode, radiante
Torna verde o campo
Faz nascer brotos
E renascer esperanças




4.6.04

Gerando vida

O vento não cansa
levanta as folhas secas
corre solto entre o capinzal

A chuva vem devagar
beija a terra
derrama-se lentamente pelo umbral da porta

Da janela
olhos famintos vêem a água sumindo pelas fendas do chão
No umbral
mãos secas juntam as gotas e alimentam-se da esperança


Paz na Terra

E se faça em mim, ânsia nordestina
Força, sangue e terra severina
Entre foices, bandeiras e preces
Fome latente que não esqueces
E filhos, lentos, esquálidos, vãos
Recolhem cactos áridos como pão
Vicejam vermes em barrigas febris
Não brotam flores, não nascem colibris
Natimortos sonhos de uma gente
Brava gente brasileira indolente
Que não vê que raiar o sol do novo dia
Mas às seis, reza a prece Ave-Maria!
Num lugar vizinho ao inferno
Onde Deus é uma cruz de ferro


3.6.04

panis et circus

corre risco a terra bruta
nas florestas exploradas
à humana perversão
selvagem fascinação
do ego que rege o homem
mãe natureza respeita
os ciclos que se repetem
porque tudo um dia nasce
envelhece depois morre
semente morta revive
fecunda ao cio da terra
rasgada ao ventre germina
o trigo que se recolhe
milagre sustenta a vida
em fogo que não consome
e humilha a constatação
da injustiça sem nome
tanta fartura de pão
e gente a morrer de fome!!!



2.6.04

Ciclos

Toda palavra
Um sentimento
Todo sentimento
Um momento
Todo momento
Uma esperança
Toda esperança
Um recomeçar
Todo recomeçar
Uma vida


1.6.04

ânsia das águas

andarilhos despojados
compõem as caravanas
sinuosas no deserto
perscrutando oásis
na busca das águas
velejadores indômitos
afrontam oceanos
de inquietas ondas
perscrutando terras
na ânsia das águas
andarilho e velejo
em dunas da imaginação
e ondas cerebrais
à sede esmoreço
e me liquefaço
sonhando um recomeço
após as chuvas de outono
vertidas infinitamente em gotas
temporais, garoas e lágrimas