31.5.04

Dai-nos hoje..

Sem lágrimas, sem gargalhadas,
sem mares, sem barcos, sem picadeiro
deserto de emoções e gestos
Sai, sem muita convicção, à rua
sem par, sem lar, sem janelas
Na cabeça – serpentário inútil -
Idéias temerárias, autofágicas
Letreiros que piscam
Luzes de uma ribalta ensandecida
E o palhaço que, durante o dia,
diverte a avenida e doa o coração,
Na noite fria e prostituída
faz malabarismos no lixo
em busca do pão nosso de cada dia


Cores da esperança

Como um assaltante, ele a invadiu. Com palavras musicais foi entrando, ocupando espaços, preenchendo necessidades.
Ela o recebeu como se fora a primeira vez. A alegria de descobri-lo fez dela menina. E o encanto se fez canto.
Estendeu-lhe a mão. Seus dedos se tocaram. Os olhos da alma se reconheceram.
Falaram de flores, de palavras, de amores. Descobriram sons, texturas e cores.
Ela, mistura de suavidade, carinho e adrenalina. Ele, bailando entre a ousadia e a timidez. Entre o desejo e a ternura.
A noite os encontrou ainda se olhando. Ainda decidindo se olhavam juntos pela janela.
Lá fora, um barco a esperá-los, ondas para embalá-los. Uma vida a ser colhida.
Ainda olhando-se, deram-se as mãos.
Afastaram-se as sombras. A vida ganhou cores da esperança.
De mãos dadas começaram a caminhar.


sombras

o sol se esconde
tanto quanto aspiro
seu lume
calor
e brilho
não projeto sombra
nem vejo remédio
ao meu frio tédio
neste mundo em sombras


28.5.04

Deserto

Seu pranto secou. As lágrimas são apenas de si mesmo.
O vento fustiga-lhe o rosto ressequido.
O sol queima-lhe a cabeça descoberta.
E as lágrimas? continuam sendo apenas suas.
Olha a estrada se encompridando e a fome faz doer sua memória.
Mas as lágrimas? ainda são só suas.
Os pés sangram sobre as pedras, as mãos se dobram ao peso das tralhas.
Mas as lágrimas? já não se lembra de cor eram elas.
Sua cabeça pende entre as pernas.
Mas as lágrimas? que lágrimas?


dunas do olhar

febril em pleno frio
me sinto eterno errante
no meio do deserto
não importa se deliro
na busca insaciável por oásis
singulares e plurais
lugares ou pessoas
um pensamento em rodamoinho
faz parte do deserto levitar
mas olhos e areia não combinam
furtiva uma lágrima socorre
a vida machucada
neste olhar



27.5.04

dança do caranguejo

sistema desengonçado
e el rei está pelado
na dança do caranguejo
o mineiro perde o queijo
paulista desempregado
só olhando na janela
carioca na rocinha
desmandos do garotinho
de rosinha na lapela
o Brasil virou viveiro
em bingos e bicharada
trabalha só o biscateiro
e pra matar essa xarada
amora é framboeza
manjubinha é tubarão
no país da esperteza
só a lula que não muda
na política miúda
de farsa e encenação
o cardume fez história
nesta pesca predatória
lula lá, sardinha não
se a coisa ficar assim
tenho ao menos para mim
sardinha sim, lula não


O engano

Faltam alegrias
Sobram suores
Na dança dos convidados
De uma festa que não é sua
Perderam o presidente
Perderam a fé
Perderam o emprego
Permanece o sistema
Permanece a luta
Permanece a certeza que só resta andar em frente.


26.5.04

comentários

alquebrados
mortos
e truncados
bicicletas, corpos e sistemas
as bicicletas são recicladas
os corpos sepultados
os entes amados permanecem
e os sistemas
bem, os sistemas
a gente simplesmente troca
quem sabe assim
funcionem


25.5.04

Flagrante

Chovia fino.
As gotas de chuva misturavam-se ao orvalho nas folhas.
E então:
o barulho
o grito
o sangue
o silêncio
a morte.
O menino quebrado de um lado.
A bicicleta azul morta do outro.


orvalho

orvalho
vertente
de muitas águas
anoitecendo se acalmaram
deixando o curso dos rios
migraram para as folhagens
as pétalas e os galhos das árvores
gotas serenas de orvalho
que quando vertem em mim
umedecem meu olhar
e ofuscam o caminho



24.5.04

Lembranças

Meus olhos úmidos
O fogo dos teus beijos
Minhas mãos errantes
A escuridão dos teus pêlos
Minha boca faminta
A rigidez do teu desejo
Meu corpo saciado
Teu abraço carinhoso

E a brancura do sono.

O amor foi dádiva
cultivada
na eternidade de uma noite


dádiva

ávida
a vida
mais que um jogo de palavras
vívida verdade vivida
porque sem dúvida
antes
durante
e depois
há vida


23.5.04

A vida

tão curta
tão insana
tão sonhada
tão querida
e nem sempre bem vivida


22.5.04

ampulheta

a ampulheta
carrega um significado
visual
conceitual
duas esferas sobrepostas
umbilicalmente ligadas
a gravidade faz a areia migrar entre elas
a uma preenche
enquanto a outra exaure
a sucessão dos dias
marca o começo e o fim
e no fim de tudo
um giro completo e o recomeço
o cair da areia que marca o tempo
na ampulheta pode ser interrompido
mas na vida isso não é possível
irremediavelmente impossível


21.5.04

tempo

a areia da ampulheta definiu irremediavelmente o tempo da minha felicidade


areia

as grandes areias
se apequenam
quando olho o horizonte
onde a curva da terra
se desenha numa linha reta
e logo à minha frente
na beira-mar
o vai-e-vem das águas
ricocheteia em ondas e espumas
um rio escorre e desaparece
no piso cediço e morno
esqueço os anos
esqueço os dias
e mesmo as horas e o relógio
me submeto aos raios tépidos do sol
nem o som ensurdecedor dos vagalhões
assustam meus ouvidos acostumados
depois de tanto tempo ali parado
o sol se esconde atrás da serra ao fundo
noto que na praia só restamos nós
eu
a areia toda à minha volta
a imensidão do mar


O renascer da vida

Absorta ela caminha pela praia.
O sol de inverno ilumina um rosto marcado pela noite insone.
Os pés deixam marcas fundas na areia.
Pesados pés, pesada figura perambulante.
Despedir-se do amor.
Exorcizar a presença.
Livrar-se das lembranças.
Deixar de ser expectante.
Absorver sua própria vida.
O mar é um convite ao esquecimento.
Os raios de sol são um convite à esperança.
Os passos se tornam leves.
E a figura bamboleante.
A praia é longa... há tempo para novos sonhos.


árvore da vida

amanheceu mais uma vez
na sucessão interminável
dos dias já passados
o amanhã está para ser decifrado
e causa estremecimentos
mas também encanto
a vida é bela
para quem é mais que expectante
se faz diretor, ator e move o próprio mundo
vai ao fundo de tudo com graça e leveza
contempla sem ferir a natureza
não retem as lágrimas fugidias
sem se condoer das próprias dores
deixa rastros perfumados
e o seu legado
perpetua



20.5.04

Frutos

Na árvore intangível
da vida
os frutos são
concretos.
São meus
e nem sempre seus:
memórias
desejos
sonhos
e filhos.


encadeie

há muitos quilômetros de tudo
numa profundidade insustentável
onde fui esquecido
nem eu sei o endereço
só tenho de mim a superfície
e o mergulho pode ser sufocante
tento ser anfíbio ao inverso
e despejo em versos
tudo o que me afoga
enquanto aspiro a mão que afaga
e fujo ao frio sinistro das adagas
que penetram a alma sem cortar
mas nada vai além de fantasia
porque o concreto deste dia
me chama ao compromisso
teclo
penso
emudeço
e nem há mais o que falar!!!
...