27.7.04

Um riso de felicidade

Depois que a lua guardou o lençol
a voz amorosa inundou o vale:
- Que se estenda agora o brilho do sol.
Que se desate o nevoeiro impertinente
Que mude de cor, o frio da agonia.
Que o vento da dor se torne fugaz,
e que qualquer tipo de guerra não sobreviva
(qualquer guerra é sempre um açoite)
A luz condescendente, transigiu
Invadiu a vidraça, e manheceu comigo
Calorosamente, a felicidade desenhou
um riso de pétalas de margaridas
em meu rosto


21.7.04

Felicidade sonhada

Ontem senti-me embalada
Lacrada com laço de fita
Pronta para ser presenteada
 
Vida pulsava no presente:
amor latejante
carinhos vicejantes
desejos escaldantes
 
A espera fez-se estrada comprida
Acordei embalagem sem vida
A felicidade foi apenas sonhada


18.7.04

Felicidade

Já não me chamo agonia...
nem sou mais solidão...
fantasia...
Te (re)descobri
e tu me reinventas
me converte
me subverte
Sou, pois, teu bálsamo
és, pra mim, alegria
Tu és rosa e seiva
manhã, tarde e noite
sol, lua e chão
elo, comunhão e união
ave, canto e vôo
fé, crença e esperança
alegria, festa e poesia
fruto e sombra
sol poente
nascer e renascer
alimento e vinho
riso e sorriso
tu és felicidade


17.7.04

Palavra tecida

Brotou fácil tua palavra
Tecida em teias,
esperança e anjos
letra rubra de seda
arrematada com pérolas
As mais raras, do teu ser
Pano prata engomado
com esmero e cuidado,
solo fértil de fundo
ungiu a semente: 
Alia-te. Continua
Segue em frente
Que o broto cresça
se torne haste e floresça
rosas, em profusão
 
 


15.7.04

palavra vazia

tua palavra
(trans)bordando poesia
germinou fértil
na alma em reticências
inclemente
teceu texto entre vírgulas
coseu sonhos sem acentos
recriou adjetivas fantasias
até que descoberta
caiu substantiva
nas surdas linhas
da vocativa desilusão
e agora jaz subordinada
entre metáforas escorregadias
pontuando na tua poesia
os sinais da tua encenação


força da palavra

as palavras são faíscas
incendeiam, tiram lascas
servem para desvendar
ou recobrem feito cascas
falam de tudo o que há
no peito, alma e na mente
daquilo que circunscreve
das coisas que vão surgir
acontecimentos passados
e mesmo das fantasias
mas quando a palavra cala
dá-se à luz a poesia


Palavras soltas

Como se levadas pela embriaguez
Minhas palavras são capazes
de tudo por ti aqui
Fazem quase tudo dentro de ti
Te levam ao êxtase, ao clímax
sonhos segredam, revelam segredos
Teus mais simples desejos despertam
Transgridem, se apossam da tua calma
E criam um furação
dentro de tua indecisão
Minhas palavras sibilam, animal
Te induzem ao pecado original
Tal qual serpentes venenosas
Nas tuas curvas perigosas
Minhas palavras acariciam,
Sussurram, te deliciam
Sem tocar teus hemisférios
Minhas palavras revelam mistérios
Minhas palavras nem falam de amor
Mas tu te entregas toda sem pudor
Minhas palavras violentam tuas vontades
Te arrancam ais interrompidos
Te despem, se introduzem em tua alegoria,
Minhas palavras recriam tuas fantasias
Minhas palavras aqui ditas
Nem sequer são ouvidas
Mas te entregas a elas
Com tamanha volúpia e desdita
Quanto uma ex-donzela perdida


12.7.04

Choro bêbado

A reprodução de uma pintura qualquer olhava-o torta na parede. Cobrindo as marcas do velho retrato que jazia no porão. Deixara-o lá como a exorcizar as lembranças. A casa ainda guardava o cheiro dela. Estava inteira na sua solidão. A garrafa vazia sobre a mesa lembrava-o da última noite. O filete de sangue no canto da boca. O corpo encolhido no chão. O choro baixo guardando a vergonha. No dia seguinte, apenas o vazio. Não havia sequer um bilhete. Nem as roupas. Nem os santos pintados à mão. Nem a velha mala sem tranca. A casa encheu-se apenas do seu choro bêbado. E das saudades que faziam dele uma sombra sobrevivente.


8.7.04

Melódica resposta

Angustias-te qual cerração fechada
a decifrar pensamentos
Sou fugidia como sol de julho
Que diferentes são as naturezas
que fazem brotar os nossos versos
Salpico o chão de rosas,
e da garganta brota o tom sonoro
das melodicas respostas
Mesmo assim, cheio de tristezas, cantas
E eu cheia de alegrias, choro


estrofe caótica

meu verso
pensamento cifrado
que já não entendo
angústia que impele à fuga
veneno que aduba o chão
e faz germinar o inverso
no solo do coração
resposta sem pergunta
estrofe temporã
desfeita em fruto estéril
uma mordida maçã


7.7.04

Última lembrança

Num sábado sem sol saí por aí.
Tinha a certeza quase infantil
de encontrar a esperança,
reencontrar você numa lembrança.
Tropecei em cartas que escrevi,
sonhos que vivi.
A angústia me dominava.
Minha poesia faltava.
Hoje eu volto.
Sem certezas
Sem lembranças ainda
As cartas rasguei
Não trago dores
nem dissabores.
A angústia ainda resiste
Meus sonhos feneceram
Mas trago de volta
A única coisa que me restou
Meu verso.


Laços em nós

Ao perder-me em ti entreguei-te
meus desejos indecentes
os sabores acri-doces dos meus topázios reluzentes
Ao perder-te em mim entregaste-me
tuas fantasias enclausuradas
nos bêbados desvarios de falsa pedra marchetada

Ao nos perdermos
em nós
construimos
uma nova história

Ao perder-me de ti
perdi pedaços de mim
porções servidas nos desvarios da tua luxúria
Ao perder-te de mim
entraste em transparência
perdeste o reflexo da minha indecente loucura

Ao nos perdermos
de nós
destruímos
uma velha história

E o adeus revelou o faiscar da minha vida em ebulição


5.7.04

Retorno

Sôltas as amarras
que te impediam os movimentos
ergue os braços e respira fundo.
(Já deixaste por tempo demais a nau
da tua alma tremulando ao vento)
Agarra com força
tua conquista, teu conhecimento
que antes te dividia em medos.
Isenta-te de culpas
Peito aberto à tua verdade
arranca teus tormentos
Mesmo que sangres, diz apenas:
-Sou eu. É o meu jeito.
Choro ao desfraldar a vela
da infância, que virou saudade


destino

destino é um lugar
o único porto seguro
onde os navios devem aportar
somos todos naus em alto mar
tripulados por grumetes marinheiros
ansiosos por enfunar as velas
zarpar em aventuras
mas como é próprio dos meninos
nos cansamos dos brinquedos
aspiramos novos mares
singrando singulares
buscamos o plural
queremos companhia num momento
e noutro desejamos solidão
as nossas rotas não traçadas
aguardam pela nossa decisão
porque ao avançarmos mar-adentro
já vamos intuinto tantos portos
de qualquer jeito navegamos
com plano e rumo certo
ou sem nenhuma direção


2.7.04

Viagem sem destino

...viajar no teu desejo
entrar numa voragem de emoção
reinaugurar cada reentrância
agonizar a cada sensação
entregar-te os meus côncavos
alvoroçar o teu tesão
enlouquecer os meus gestos
umedecer a tua satisfação
explorar os teus convexos
entrar na tua dimensão
introduzir-te na minha volúpia
inverter a tua direção
abrir chagas no teu corpo
ser-te nova cicatrização
entregar-me à tua boca
e morrer na vertigem sem destino da minha própria levitação...


1.7.04

viagem e destino

todas as minhas viagens
um único destino
o teu espaço sideral
que contêm tudo o que sou
a minha órbita estelar
conheço os teus poros
e conheço teus humores
viajo no teu corpo
em peripécias infantis
galgando os teus montes
teus vales delirantes
me finjo ameaça
e em cortinas de fumaça
te perco toda em mim
e escuto o teu silêncio
me afundo em dormências
e é bom que seja assim
felicidade nominada
no percurso desta estrada
que construimos juntos
nas saliências e reentrâncias
um do outro
até o fim