31.12.04

desassossego

há uma estranha melancolia
:
no adágio para cordas de mozart
tocando na vitrola
no rock
(a um volume ensurdecedor)
no carro dos rapazes do bar em frente
na variedade do verde das palmeiras ao longe
e da castanhola e do ipê tão perto
nas vozes alegres da pessoas espremidas em longas filas
à porta da doceira
e no tom róseo do céu nessa tarde de dezembro.

há uma estranha melancolia em mim
(e bem sei não deveria)
:
um desassossego
que a tudo contagia
como uma epidemia de saudade.


30.12.04

Vôo sem asas

O sol morre lentamente. Lentamente morre em mim o brilho do encanto. A tarde ganha cores de melancolia. Saudades do que ainda não vivi. O vazio na alma exige um novo renascer. Teimo em esperar. Mais um dia. Mais dois ou três. Esperança sem asas. Mas ainda esperança. Fecho os olhos. Viro lembranças. Renascerei. Quando arrancar do calendário as tardes de dezembro.


22.12.04

ronda

bares: tantos.
noites: várias.


no meu corpo, que é de todos,
um só desejo
— teu —

: e não vens.



11.12.04

Agora Cínica

Ergue um pouco a saia.
Ajeita a blusa pro ombro ficar à mostra.

Na bolsa, o necessário:
Batom, delineador, o velho pente desdentado,
Um OB para a emergência,
O celular descarregado
Em chamadas não atendidas.

Na cabeça leve demência
Estanca qualquer pensamento.

No coração a ausência
De antiga e remota repulsa.

É só ventre.
Este sim pulsa tomado pela urgência.

Respira fundo,
Ensaia,
Chacoalha as ancas,
Sorri.

De lirismo nem lembra mais.
Aprendeu a ser arguta.

Doravante só busca o prazer.
Desce a rua resoluta
e
Se ao voltar trouxer revide
Terá sido absoluta.



Adélia Theresa Campos
10/12/04


9.12.04

Acordada


Decidiu. Assim, sem mais nem menos. Devolveu o vestido novo, antes de usá-lo. Inútil e caro. E após o nome dele, pôs um único e definitivo ponto: final. Depois, tratou de seguir vivendo. Mesmo sem saber ainda, ao certo, como fazê-lo.