15.10.07

deserto

tem dias dentro
ao se levar um fora
que tudo escurece
e os sentidos fogem
então pipocam porquês
sem interjeições
tudo é reticência...
sentimento irado
louco alienado
carente de fazer dó
sustenidos e bemóis
ouvido em caracóis
bramindo feito mar
não é só desespero
a ânsia inexprimível
grito amordaçado
sufocando a pressa
tanto divagar
nas culpas serenas
dum árido coração
que só faz chorar...


23.11.05

Eremita

Eremita
Bloco de texto
Não sou a fortaleza que espera
do alto da montanha
o ataque definitivo da solidão
Nem o guerreiro medieval
fechado em armadura
guardado pro um canhão
não sou o cavalo de Tróia
a esconder salteadores
à espera da invasão
não sou a águia que alça vôo
em busca de novas presas
para saciar minha ambição
Sou um velho eremita
à espera da esperança...
fugindo da minha solidão
Para vê-la se transformar,
um dia, quem sabe?
num bailado, uma festa
uma dança de salão...


10.6.05


Sou mera ilusão de ótica
imagem virtual
formada atrás do espelho
em que te olhas.
Tu não me vês nunca.
Às vezes me adivinhas
pressentes
no teu quarto
no teu corpo
etérea.
E eu rio da
tua cara de bobo
olhando as tuas mãos vazias
que eu afago
e a tua boca
que eu beijo
todo dia
sem que me vejas.


9.5.05

questão de óptica

.
nem sei mais
se sou eu a nela pisar
ou se é ela a tropeçar em mim
.
sei que nunca tenho sossego
.
daria ela um trégua
se tu sobre mim orbitasses
trazendo o teu olhar a pino?

.


24.4.05

à porta


decerto, partia.

mas a sombra — a sua sombra — hesitava
e estendia-se porta adentro
como se fora possível reter
naquele último instante
toda a vida que se lhe escorrera
pouco a pouco entre os dedos
e definitivamente
se perdera
.


10.4.05

De boca e de vida


Perder-se em sua boca era tudo que queria. Quando ainda acreditava em amor.
Um dia sua boca se uniu à dele. Entregou-se inteira a ela - a boca dele. Um dia. Quando ainda acreditava em amor.
Hoje acredita nos dentes perpetuados em volta dos mamilos. Nas manchas de sangue no colchão. Na dor que se esconde na alma. No sorriso que não chega aos olhos. No corpo que entrega a quem der mais.
E na boca que se fechou para outras bocas.


13.1.05

esta noite


mais que lua
quero tua boca úmida
em minha pele nua.




vale-um-conto?!

A culpa não foi de Eleonora. Sabe quando a pessoa se encontra no lugar errado, na hora errada e com a pessoa errada? Lugar errado?!: o Hotel Netuno Blues. Hora errada?: 8 da manhã. Quanto à pessoa errada - talvez seja melhor examinar isso mais a fundo - mas, enfim, tratava-se de Alfredo, seu ex-marido, atualmente amasiado com Justine.
Eleonora, definitivamente, é aquele tipo de mulher que se dá ao respeito. Empregada registrada no quadro de funcionários do hotel - na função de camareira, ganha a merreca de 540 reais por mês e cumpre uma jornada diária mínima de 12 horas e tem que caprichar muito pra conservar o emprego, principalmente no chamado período de experiência próximo de concluir. Uma hora e meia depois de chegar ao serviço, lá estava ela atendendo ao chamado urgente do quarto 503 que reclamava sobre uma porta de banheiro travada. Que o primeiro nome do hóspede informado pela portaria lhe despertara emoções contraditórias não podia negar. Mas que ele fosse o Alfredo - ela o chamava pelo diminutivo "Dinho", isso nunca poderia imaginar. Afinal devem existir milhares de Alfredos na cidade e o sujeito em questão, tinha se mudado para o Rio desde a separação de ambos. Mas não é esse o fio condutor da estória. O que importa é que tampouco Alfredo jamais poderia imaginar que sua formosa ex, fosse agora uma humilde servente de um hotel 3 estrelas. Recém saído do banho lembrou que no bolso da calça que havia ficado no banheiro estavam todos os seus documentos, dinheiro e as anotações de endereços dos clientes a visitar naquele dia calorento. Meio a contra-gosto aceitara que Justine estivesse com ele em São Paulo aquele dia - apesar do contratempo que isso causava aos seus compromissos de vendedor. Mas ela já ligara do aeroporto e portanto logo deveria chegar ao hotel. Só concordara com essa vinda para não criar dificuldades com Justine, que tirando o ciúme doentio e algumas atitudes intempestivas, era de resto uma excelente companheira. Nesse quesito quase podia se equiparar a Eleonora. Ah Eleonora!... Mas esta já fazia parte do passado. Boas lembranças, alguma saudade - mas algo definitivamente morto e enterrado. O relacionamento durara 16 anos e sem que se soubesse exatamente os porques, - terminara por pura inanição e então ambos decidiram trilhar em solo suas vidas. Nem os dois filhos já adolescentes pareceram sofrer maior abalo porque não tendo visto nenhum atrito grave entre os pais, para eles era como se aquele casamento não tivesse sequer se dissolvido. Em todo caso, ficaram com a mãe e viam o pai com alguma regularidade. Visitavam-no mesmo, esporadicamente, no Rio de Janeiro para onde se mudara. Eleonora que recebia a pensão de mil reais não estava dando conta das despesas e resolvera procurar um emprego pra reforçar o orçamento. Os garotos também tinham arrumado um empreguinho pra sustentarem seus gastos pessoais e a vidinha ia sendo levada dessa forma. Mas Eleonora não era de dar o braço a torcer e contar pra todo mundo que agora era camareira - tinha praticamente concluído a faculdade de filosofia e a respeito de qualquer dependência sua em relação ao gênero masculino ela era dotada de uma retórica cartesiana e uma prática platônica. Ou seja, para ela homem doravante, só em sonhos. E o homem dos seus sonhos jamais deixara de ser Alfredo. Isso descobrira algum tempo depois da separação... mas em relação a isso já não havia nada mais a fazer. Além do que o orgulho não a deixaria jamais confessar tal fragilidade. E já estamos novamente descarrilhando o trem da estória... Pra resumir: Alfredo deixou a porta aberta para Justine entrar assim que subisse até o 5º andar e foi tentar de novo desemperrar a fechadura da porta do banheiro, não sem antes voltar a reclamar na portaria e pedir a assessoria de alguém pra ingrata tarefa de resgatar seus pertences. Enquanto - de costas para a entrada - fuçava desesperado tentando abrir a porta, Eleonora, sem reconhecê-lo aproximou-se e juntos começaram a forçar o fecho enguiçado. Nenhum conversa trocaram e depois de dois ou tres minutos de inútil tentativa ele acabou se irritando mais do que já estava - deu um passo atrás e avançou com os ombros à porta. Porta de banheiro de hotel geralmente não é lá essas coisas e com aquela não foi diferente. A tranca cedeu, a porta abriu e ambos foram juntos ao chão - desesperadamente procurando algo em que se segurar. Não encontrando nada melhor acabaram se engalfinhando sem querer um no outro. Se o non sense da situação já não estivesse no limite do absurdo - pior ficou quando ambos finalmente se reconheceram e antes mesmo que pudessem esboçar qualquer reação - eis que surge à porta principal - imaginem quem... - acertou quem imaginou Justine. E não foram precisos mais que 10 segundos para que o ciúme doentio de Justine encaminhasse sua fértil imaginação a deduzir o que deveria estar se passando. Seus olhos doces se injetaram de sangue, ela arrancou a toalha úmida que envolvia a cintura de Alfredo - deixando-o boquiaberto e nu e com a mesma toalha aplicou uma tunda em Eleonora que se abaixava procurando fugir dos golpes. Nenhum dos dois ex tentou explicar qualquer coisa a Justine. Ambos sabiam que seria absolutamente inverossímil qualquer argumento. Justine virou-se bufando e bateu violentamente a porta do quarto ao sair dali - e não só dali - mas também da vida de Alfredo para sempre... Marido e Mulher - afinal nem o divórcio ainda tinha saído - se olharam envergonhados - mas sem nenhuma acusação um ao outro. Ele ainda estava bonitão ela pensou intimamente e sentiu aquele mesmo antigo arrepio percorrer-lhe a espinha ao ver de novo à sua frente um homem nu - o seu homem - depois de 22 meses e 15 dias - ela contava e recontava milimetricamente o doloroso tempo de separação. Alfredo, mesmo enrubescido pela vergonhosa situação, percorreu Eleonora dos pés à cabeça e não pode deixar de admirar a sua beleza ainda intacta e apetitosa. Eleonora parecendo não acreditar no que via e sentia, fechou os olhos e apertou-os chacoalhando a cabeça por um breve instante e percebeu em seguida os braços de Alfredo enlaçando-a com suave firmeza. Não pode e nem quis esboçar qualquer reação. No instante seguinte seus lábios se tocaram e sentiram novamente aquele mesmo fogo da paixão que os consumira no início do relacionamento. Nenhum dos dois sabia naquele instante como seria o momento seguinte, o dia seguinte, a vida que seguiriam - mas ambos pareceram abrir mão do comando naquela situação inusitada. Seguir o instinto pareceu-lhes mais sábio. Sem qualquer plano e sem nenhum projeto, apenas amaram-se daquela forma incandescente de dois amantes inconsequentes, tendo unicamente a luz do sol por calorosa testemunha...


PS.: esse texto é pura ficção e qualquer semelhança com nomes, lugares e situações não passa de coincidência. Publiquei-o originalmente no meu blog "H@ Vida Depois dos 40", em 28/02/2003


12.1.05

Sereia

Esta fase do amor é bela demais
Posso transformar-me em sereia
jogar o meu charme, escamas na areia
Ver refletida da lua cheia, a cor violeta
Derramada seleta: a ti e a mim

Posso ver teus olhos, singrando meu corpo
tal qual uma gôndola, cruzando Veneza
Com tua mestria rompendo a represa
unir bem de mansinho, o rio com o mar

Rompendo as nuvens, agradável surpresa,
grossas gotas de chuva explodindo em bolhas.
Olhos de fé, corpos em brasas
pairar sobre as ondas. Assim...
amar é imaginar-se sobre o mar, tendo asas


10.1.05

linhas e anzóis

quisera fechar-me em conchas
mas uma invasão sutil
inundou-me a alma
e transbordei de afetos
seria uma mulher
seria um ser marinho
sereia?!...
adentrou-me à veia
causando rebuliços
reviravoltas e náuseas
rompeu o meu completo auto-domínio
e dominado sigo intenso
respiro à liberdade extenuado
o sangue circulando em frenesi
refém do teu perfume e fascinado
em tuas mãos a linha, o anzol
e eu todo contente do outro lado
fisgado feito um mero lambari


a hora má

para Virgínia Woolf, onde e se estiver

: e já que não se lhe deixavam alternativa

pescava junto com os outros,
e secretamente, pecava
sonhando com o dia em que seria
peixe entre os peixes, mais uma
sem nome entre as algas.

e eles
— todos eles —
sequer imaginavam.



7.1.05

Zé dos Peixes

Muitas vezes, em minhas pescarias despretensiosas pude admirar a paciência do velho pescador. Costumava observar a sua despojada exposição ao causticante sol-a-pique. Acho que não fazia caso do calor porque raramente eu o vi pescar nas prazeirosas sombras das árvores não muito frequentes do Panema. Usava apenas um chapéu de palha por proteção e roupas rotas pelo intenso uso. Vez em quando fisgava um lambari, um tambiú, um mandizinho chorão. Nada que fizesse volume no bornal surrado. Nesses momentos seu corpo se retesava na barranca do rio e se percebia claramente o seu prazer à caça dos minúsculos peixes fisgados. Não soube muito sobre ele, a sua atenção à pesca não lhe permitia entabular grandes conversas beira-rio, o seu mais frequente habitat. Gostava que o chamassem simplesmente 'Zé dos Peixes'. Era viúvo e tinha 3 filhos que moravam na cidade e que raramente o visitavam na fazenda onde ele estivera morando desde a mais tenra infância. No último final de ano, cumprindo a sua rotina diária, ele foi ao rio Paranapanema para a sua pescaria miúda. Pelo volume já mau-cheiroso do seu bornal, aquela parece ter sido uma das melhores pescarias do ano. O rio andava meio repontado e muitos bagres foram fisgados. Não se sabe exatamente como aconteceu, mas ele foi encontrado logo de manhã, sentado num dos seus lugares prediletos na barranca do rio, em estado de rigidez cadavérica. Supõe-se que tenha morrido na tardinha da véspera. Pela sua expressão - um esboço de sorriso - é muito provável que tenha fisgado um daqueles lépidos peixinhos prateados ao dar o seu derradeiro suspiro. Descanse em paz, seu Zé dos Peixes.


6.1.05

calada

certa palavra ouvida
não foi dita nem pensada
pois morreu dilacerada
antes de ser concebida
nunca será pronunciada
foi velada no silêncio
e jaz quieta na calada


31.12.04

desassossego

há uma estranha melancolia
:
no adágio para cordas de mozart
tocando na vitrola
no rock
(a um volume ensurdecedor)
no carro dos rapazes do bar em frente
na variedade do verde das palmeiras ao longe
e da castanhola e do ipê tão perto
nas vozes alegres da pessoas espremidas em longas filas
à porta da doceira
e no tom róseo do céu nessa tarde de dezembro.

há uma estranha melancolia em mim
(e bem sei não deveria)
:
um desassossego
que a tudo contagia
como uma epidemia de saudade.


30.12.04

Vôo sem asas

O sol morre lentamente. Lentamente morre em mim o brilho do encanto. A tarde ganha cores de melancolia. Saudades do que ainda não vivi. O vazio na alma exige um novo renascer. Teimo em esperar. Mais um dia. Mais dois ou três. Esperança sem asas. Mas ainda esperança. Fecho os olhos. Viro lembranças. Renascerei. Quando arrancar do calendário as tardes de dezembro.


22.12.04

ronda

bares: tantos.
noites: várias.


no meu corpo, que é de todos,
um só desejo
— teu —

: e não vens.



11.12.04

Agora Cínica

Ergue um pouco a saia.
Ajeita a blusa pro ombro ficar à mostra.

Na bolsa, o necessário:
Batom, delineador, o velho pente desdentado,
Um OB para a emergência,
O celular descarregado
Em chamadas não atendidas.

Na cabeça leve demência
Estanca qualquer pensamento.

No coração a ausência
De antiga e remota repulsa.

É só ventre.
Este sim pulsa tomado pela urgência.

Respira fundo,
Ensaia,
Chacoalha as ancas,
Sorri.

De lirismo nem lembra mais.
Aprendeu a ser arguta.

Doravante só busca o prazer.
Desce a rua resoluta
e
Se ao voltar trouxer revide
Terá sido absoluta.



Adélia Theresa Campos
10/12/04


9.12.04

Acordada


Decidiu. Assim, sem mais nem menos. Devolveu o vestido novo, antes de usá-lo. Inútil e caro. E após o nome dele, pôs um único e definitivo ponto: final. Depois, tratou de seguir vivendo. Mesmo sem saber ainda, ao certo, como fazê-lo.


14.11.04

Distância


Ele me falou do sonho
não ouvi
não percebi
não entendi
Há tempos estou acordada


11.9.04

Flagrante

Ela descia a rua pensando no seu destino ingrato. De repente o pé vira e a dor tira-lhe o fôlego.
Não! Aquilo não era destino de um ser humano! Levantar às cinco, sair pela rua escura às seis e quebrar o pé do nada! Definitivamente iria voltar para cama.
Sentada na calçada, pés nas mãos, lágrimas rolando no rosto, ela era apenas dó de si mesma.
E o atestado? A cama não justificaria sua falta.
Buscou na memória o que havia dentro da bolsa. Tudo menos grana. Nada de táxi.
Levantou-se e deixou-se ir mancando.
Lembrou do ex-marido e maldisse seu orgulho. Para ele não ligaria.
Não havia namorado. Apenas companheiros eventuais de sexo. Pinto amigo.
Às vezes a solidão virava inimiga.
Mas sentir-se ela mesma valia a dor no pé. E valia a dor na alma.
Continuou descendo a rua.
Mancando.


19.8.04

Retalhos de felicidade

Horizonte azul
Chuva nos cabelos
Banho de estrelas
Cheiro da manhã
Beijo de mar
Flores no caminho
Carinho inesperado
Sorriso de criança
Mãos que se estendem
Confiança no amanhã
Saudade do futuro
Coração sorridente
Amor ao amor


17.8.04

plenitude

felicidade é a junção do querer e o ter
quando se encontra alguém
somado a outro alguém
formando um novo ser
plena e nova pessoa


13.8.04

Busca

Felicidade, busco-a.
Busco-a, com o olhar de menina travessa
que aguarda do orvalho, cada gota
para acariciar uma rosa.
Busco-a com ar de adolescente,
na folha especial,
entre o veludo e a prata
do velho livro manuseado
Amor, prosa e poesia
com trevo marcado
Busco-a no auge da lisura da tez,
e na instauração do cio.
Na beleza do rio
que margeia a cidade.
No brilho do sol,
intenso e caro
imenso e claro
Busco-a no grito do final da tarde
que anuncia a noite
E ainda que o breu flagele
meus olhos,
busco-a no escuro,
e acato o açoite.



10.8.04

adolescente

“A tarde cinza é uma elegia,
nas alamedas do meu jardim
felicidade, quem diria?
Que te fosses cedo assim...” (Talvez seja de Raimundo Correia, não sei. Alguém sabe?)

não tenho medo de sonhar.
quero a felicidade
com a ânsia indômita
de um adolescente.
quero a felicidade.
nem que seja para
num momento espesso
reconhecê-la na penumbra
descer com ela cordilheiras de vidro
gotejando lavas de brasa e mel
quero a felicidade
como a carta com lábios de batom
que repousa, sonhadora,
no colo de uma adolescente
quero-a, felicidade!
em versos, diversos
na métrica incerta
e rimas dispersas,
mas quero-a!
Eterna-mente...


2.8.04

Tempo das flores

Há dias em que o presente nos cai como flores de ipê colorindo a calçada.
O desenho é lindo. A delicadeza das pétalas nos faz ter medo de pegar a flor.
Mas estão ali para serem pisadas. Por pés desavisados ou por almas insensíveis.
E enquanto olhamos o desenho colorindo o chão, o tempo passa.
O presente vira passado. As flores murcham ou são pisadas.
E a contemplação vira lamentação.
As flores não foram colhidas e o tempo não volta mais.
As marcas no chão viram esperança de um novo reflorir.


1.8.04

Da esperança

Hão de brotar, então,
de dentro de mim,
margaridas e sonhos
e a minha alma saciada
há de repetir, plena:
sou tua natureza viva!
enquanto uma ave azul
deixa cair sobre mim
como pétalas, sementes
de todas as esperanças perdidas
alcarei, então, todo o infinito
e nascerá de mim a fé
a mesma que me conduz
e faz com que todo o meu ser
seja um eterno renascer
de flores, sonhos e esperanças!


27.7.04

Um riso de felicidade

Depois que a lua guardou o lençol
a voz amorosa inundou o vale:
- Que se estenda agora o brilho do sol.
Que se desate o nevoeiro impertinente
Que mude de cor, o frio da agonia.
Que o vento da dor se torne fugaz,
e que qualquer tipo de guerra não sobreviva
(qualquer guerra é sempre um açoite)
A luz condescendente, transigiu
Invadiu a vidraça, e manheceu comigo
Calorosamente, a felicidade desenhou
um riso de pétalas de margaridas
em meu rosto


21.7.04

Felicidade sonhada

Ontem senti-me embalada
Lacrada com laço de fita
Pronta para ser presenteada
 
Vida pulsava no presente:
amor latejante
carinhos vicejantes
desejos escaldantes
 
A espera fez-se estrada comprida
Acordei embalagem sem vida
A felicidade foi apenas sonhada


18.7.04

Felicidade

Já não me chamo agonia...
nem sou mais solidão...
fantasia...
Te (re)descobri
e tu me reinventas
me converte
me subverte
Sou, pois, teu bálsamo
és, pra mim, alegria
Tu és rosa e seiva
manhã, tarde e noite
sol, lua e chão
elo, comunhão e união
ave, canto e vôo
fé, crença e esperança
alegria, festa e poesia
fruto e sombra
sol poente
nascer e renascer
alimento e vinho
riso e sorriso
tu és felicidade


17.7.04

Palavra tecida

Brotou fácil tua palavra
Tecida em teias,
esperança e anjos
letra rubra de seda
arrematada com pérolas
As mais raras, do teu ser
Pano prata engomado
com esmero e cuidado,
solo fértil de fundo
ungiu a semente: 
Alia-te. Continua
Segue em frente
Que o broto cresça
se torne haste e floresça
rosas, em profusão
 
 


15.7.04

palavra vazia

tua palavra
(trans)bordando poesia
germinou fértil
na alma em reticências
inclemente
teceu texto entre vírgulas
coseu sonhos sem acentos
recriou adjetivas fantasias
até que descoberta
caiu substantiva
nas surdas linhas
da vocativa desilusão
e agora jaz subordinada
entre metáforas escorregadias
pontuando na tua poesia
os sinais da tua encenação


força da palavra

as palavras são faíscas
incendeiam, tiram lascas
servem para desvendar
ou recobrem feito cascas
falam de tudo o que há
no peito, alma e na mente
daquilo que circunscreve
das coisas que vão surgir
acontecimentos passados
e mesmo das fantasias
mas quando a palavra cala
dá-se à luz a poesia


Palavras soltas

Como se levadas pela embriaguez
Minhas palavras são capazes
de tudo por ti aqui
Fazem quase tudo dentro de ti
Te levam ao êxtase, ao clímax
sonhos segredam, revelam segredos
Teus mais simples desejos despertam
Transgridem, se apossam da tua calma
E criam um furação
dentro de tua indecisão
Minhas palavras sibilam, animal
Te induzem ao pecado original
Tal qual serpentes venenosas
Nas tuas curvas perigosas
Minhas palavras acariciam,
Sussurram, te deliciam
Sem tocar teus hemisférios
Minhas palavras revelam mistérios
Minhas palavras nem falam de amor
Mas tu te entregas toda sem pudor
Minhas palavras violentam tuas vontades
Te arrancam ais interrompidos
Te despem, se introduzem em tua alegoria,
Minhas palavras recriam tuas fantasias
Minhas palavras aqui ditas
Nem sequer são ouvidas
Mas te entregas a elas
Com tamanha volúpia e desdita
Quanto uma ex-donzela perdida


12.7.04

Choro bêbado

A reprodução de uma pintura qualquer olhava-o torta na parede. Cobrindo as marcas do velho retrato que jazia no porão. Deixara-o lá como a exorcizar as lembranças. A casa ainda guardava o cheiro dela. Estava inteira na sua solidão. A garrafa vazia sobre a mesa lembrava-o da última noite. O filete de sangue no canto da boca. O corpo encolhido no chão. O choro baixo guardando a vergonha. No dia seguinte, apenas o vazio. Não havia sequer um bilhete. Nem as roupas. Nem os santos pintados à mão. Nem a velha mala sem tranca. A casa encheu-se apenas do seu choro bêbado. E das saudades que faziam dele uma sombra sobrevivente.